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Bando de Teatro Olodum: 36 anos de pretagonismo artístico

Aulas integram os eixos Ancestralidade, Trilogia e Corpo Político

Régia Mabel Freitas
Por Régia Mabel Freitas
| Atualizada em
Bando de Teatro Olodum
Bando de Teatro Olodum - Foto: Marcio Lima/Divulgação

Em 17 de outubro de 1990, o Bando de Teatro Olodum – Patrimônio Cultural Imaterial de Salvador, por meio da Lei nº 9.976/2026 – foi criado no Centro Histórico desta capital baiana. Esse reconhecimento oficial manifesta a grande relevância nacional e internacional dessa companhia, que organiza, acerva, produz e difunde conhecimentos sobre questões raciais numa perspectiva interseccional e contracolonial, criando um espaço multirreferencial de ensinâncias e aprendências antirracistas para artistas e plateias pelo viés das Artes Cênicas. Como pretagonistas de suas próprias narrativas, quebram o paradigma folclorizante das artes afro-brasileiras e exaltam a engenhosidade intelectual negra.

O Bando é composto por Arlete Dias, Ednaldo Muniz, Geremias Mendes, Jorge Washington, Rejane Maia, Rivaldo Rio e Valdineia Soriano (desde 1990), Cássia Valle e Merry Batista (1991), Zebrinha (1993), Jarbas Bittencourt e Leno Sacramento (1996), Fábio de Santana e Sérgio Laurentino (2001), Jamile Alves (2002), Cell Dantas e Nine Vieira (2006), Jefferson Souza (2011), Naira da Hora (2013), Shirley Silva (2014), Danilo Cerqueira e Lucila Laura (2024). Revelaram-se nesse grupo Aloísio Menezes, Anativo Oliveira, Auristela Sá (in memorian), Deise Ramos, Edvana Carvalho, Ella Nascimento, Érico Brás, Lázaro Machado, Lázaro Ramos, Lucas Leto, Luciana Souza, Ridson Reis, Robson Anjos, Tânia Toko, Telma Souza, Virgínia Rodrigues e muitas dezenas de artistas.

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O repertório artístico desse celeiro de afrossaberes possui diversas montagens, tais como “Essa é nossa praia” (1991), “Onovomundo” (1991), “Ó Paí, Ó!” (1992), “Woyseck” (1992), “Medeamaterial” (1993), “Bai Bai Pelô” (1994), “Zumbi” (1995), “Zumbi está vivo e continua lutando” (1995), “Erê pra toda vida – Xirê” (1996), “Ópera de três mirreis” (1996), “Cabaré da Rrrrraça” (1997), “Um tal de Dom Quixote” (1998), “Ópera de três reais” (1998), “Sonho de uma noite de verão” (1999), “Já fui” (1999), “Material Fatzer” (2001), “Relato de uma guerra que (não) acabou” (2002), “Oxente, cordel de novo?” (2003), “O Muro” (2004), “Autorretrato aos 40” (2004), “Áfricas” (2006), “Bença” (2010), “Dô” (2012), “Erê” (2015) e “Resistência Cabocla” (2023).

Além disso, o grupo exibiu “Essa é nossa praia” na Televisão Educativa (TVE-Bahia), participou dos clipes “Samba Reggae” (Jimmy Cliff/1991) e “Jesus Cristo” (Mara Maravilha/1993), dos filmes “Jenipapo” (Monique Gardenberg/1994) e “Jardim das Folhas Sagradas” (Póla Ribeiro/2011), realizou exposições de máscaras (1991) e de fotos dos espetáculos (1993), publicou o livro “Trilogia do Pelô” (composto por “Essa é nossa praia”, “Ó Paí, Ó!” e “Bai Bai Pelô” além de outros textos/1995), adaptou “Ó Paí, Ó!” para o cinema (2007) e para a minissérie da Rede Globo (2008 e 2009), biografou o documentário “Bando, um filme de:” (2018) e criou “Ó Paí, Ó! 2” (2023).

Dentre as inúmeras atividades formativas, destaco a “Oficina de Performance Negra” – qualificação artística gratuita, para jovens e adultos, com metodologia autoral sobre o Teatro Negro do Bando, por meio de aulas sobre audiovisual, comunicação, dança, iluminação, gestão e produção cultural, memória e identidade, música, teatro e sonorização. Combatendo, além do racismo, o sexismo, o capacitismo, a lesbo-homo-transfobia, o etarismo e o classismo, neste ano, as aulas integram os eixos Ancestralidade, Trilogia e Corpo Político. No 1º semestre, essa Oficina ocorreu a convite da Caixa Cultural Salvador através do programa educativo “CAIXA Gente Arteira” com pesquisa de campo afrodiaspórica à luz do eixo Ancestralidade no MAFRO (Museu Afro-brasileiro da Universidade Federal da Bahia), guiada pelo diretor e coordenador do museu Dr. Marcelo Cunha, e à luz do eixo Corpo Político na Feira de São Joaquim, guiada pelo Bando.

Já neste 2º semestre, com o patrocínio master da Petrobras, por meio da Lei Rouanet, mais uma edição da Oficina está ocorrendo em três Núcleos (Centro Cultural de Plataforma, Espaço Cultural de Alagados e Subsede da Cultura e Cidadania do Sindipetro Bahia). Desta vez, a pesquisa de campo afrodiaspórica foi realizada à luz do eixo Trilogia no Centro Histórico de Salvador, conduzida pelo museólogo e idealizador do projeto Odú Imersão Cultural Eldon Neves (Sociedade Protetora dos Desvalidos) e pelo Bando. Essas experiências formativas foram cruciais no processo formativo para a composição de personagens ante a necessidade de extirpar estereótipos e arquétipos que nutrem o racismo estrutural.

Parabéns, Bando de Teatro Olodum, pelos 36 anos de pretagonismo artístico! Afinal, “é preciso ter coragem para ter na pele a cor da noite” (“Cabaré da Rrrrraça”), evidenciando, ante a legislação supostamente libertária assinada há 138 anos, que “a lei existe, mas o quadro é negro e a história é branca” (“Erê”) e exclamando, devido à ideologia eurocentrada que atualiza a colonialidade diuturnamente, que o grito de “independência só pode sair desta [nossa] garganta” (“Resistência Cabocla”).

Mó dúpé (Obrigada) pelo legado intangível antirracista nos palcos da vida e da arte!!!

Régia Mabel Freitas - Escritora, palestrante e pesquisadora interseccional e contracolonial sobre Raça e Gênero; doutorado em Difusão do Conhecimento/Ufba e pós-doutorado em Educação/USP.

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