JÚRI POPULAR
Caso Mãe Bernadete: expectativa é que principal executor pegue pena de 40 anos
Acusado vai a júri popular nesta terça-feira, 13


O terceiro acusado de assassinar a líder quilombola Maria Bernadete Pacífico Moreira, a Mãe Bernadete, vai a júri popular nesta terça-feira, 13, no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador.
Josevan Dionísio dos Santos, conhecido como “BZ” ou “Buzuim” é apontado pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) como um dos responsáveis pela execução.
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Expectativa de pena máxima
O advogado da família de Mãe Bernadete e assistente de acusação, Hédio Silva, disse que, no júri de hoje, “as provas são testemunhais, quem estava no local reconheceu, há provas periciais e documentais, o afastamento do sigilo de celular”.
É um conjunto probatório irrefutável, de maneira que nossa expectativa para hoje é a pena máxima, de 40 anos.
Segundo Hédio, Josevan foi o principal executor de Mãe Bernadete. “Ele que executou o primeiro disparo. O próprio companheiro de execução dele, o Arielson, confirmou isso. O primeiro disparo foi feito por José. Foram dezenas de disparos. Ela foi executada com 25 disparos”, ressaltou em entrevista concedida à imprensa.
O advogado pontuou que, certamente, os defensores tentarão fazer o trabalho deles, “mas não vejo como o jurado não ser convencido pela robustez”.

Segurança do filho ameaçada
Hédio Silva também falou sobre a sensação de insegurança pela qual Jurandir Pacífico, filho de Mãe Bernadete, está passando, a ponto de precisar ser escoltado.
“Ele é o sucessor dela e quem está à frente do quilombo. Ele está sendo escoltado e deve permanecer assim, porque a gente está mexendo com o tráfico de drogas e com facção criminosa. A segurança do Jurandir é fundamental e sem prazo para que termine esse esforço que tem sido feito para garantir a integridade física dele”, ressaltou.
Para Jurandir Pacífico, hoje é um dia difícil, “mas é um dia que a gente luta por justiça, porque hoje vai ao júri o cara que apertou o gatilho”.
Ele que matou minha mãe, ele que deu aqueles tiros em minha mãe, uma senhora de 72 anos, que nunca fez mal a ninguém, só fazia o bem.
O homem também falou sobre o medo que o persegue. “Se eu perder a escolta que eu tenho hoje eu morro no mesmo dia. Não me sinto um cara seguro mais. A minha vida não vai ser mais a mesma e eu tenho consciência que o dia que eu perder a escolta eu estou morto”, completou.

Crime mudou rotina da família
O neto de Mão Bernadete, Wellinton Pacífico, disse que não existe "nenhuma palavra para qualificar" o momento do crime, presenciado por ele, sua irmã caçula e seu primo, ambos de 13 anos à época.
"Depois dele foi muito difícil a gente se reconstruir, a gente se curar. Foi um processo que a gente continua se esforçando para que aconteça. Era um dia normal, um dia entre família que a gente não contava com o trauma, com a mancha da covardia e brutalidade", relata.
Wellinton também compartilhou que depois do crime a rotina deles mudou completamente.
"Foi algo que trouxe danos para a infância das duas crianças, para minha vida, para a comunidade. E hoje a gente tem que conviver com essa com essa mancha de violência", disse
A nossa rotina, o nosso dia a dia, ele foram coisas que mudaram completamente, porque já tínhamos uma uma vida ceifada na família. Meu pai foi assassinado em 2017.
"E ter acontecido isso com minha avó da mesma maneira, lutando pela comunidade, a gente hoje entende que a cuidar da nossa família é uma prioridade", completou.

Uma das mudanças mais marcantes para Wellinton é o fato de não poder mais exercer a profissão de músico, por conta da necessidade de se resguardar.
"Hoje a gente tem uma vida bem limitada, a gente se resguarda tudo, a gente pensa para onde a gente vai. Eu mesmo que sou músico não tenho mais a mesma rotina, não posso exercer essa a profissão da maneira que eu exercia antes de 2023. Então, é muito delicado", finaliza Wellinton.
Investigação e motivação do crime
Conforme a acusação do MP-BA, a atuação de Mãe Bernadete em defesa da comunidade quilombola e sua oposição à expansão do tráfico de drogas teriam provocado conflitos com uma organização criminosa que atuava na região.
As investigações apontam que a ordem para o assassinato teria partido de integrantes da liderança do grupo criminoso. A suspeita é de que a líder fosse vista como um obstáculo à criação de pontos de venda de drogas e à prática de outras atividades ilegais nas proximidades da barragem de Pitanga dos Palmares.
“O que a polícia conseguiu provar vincula a ação ao tráfico de drogas na região. No início das investigações foram adotadas várias linhas investigativas. Dessas, restou um maior nível de comprovação que vincula ao tráfico de drogas. Ou seja, tudo leva a crer, pelas provas, que ela foi morta amando o tráfico de drogas”, pontuou o advogado Hédio Silva.
Cinco pessoas são acusadas
Antes de Josevan, Arielson da Conceição dos Santos e Marílio dos Santos foram condenados pelo Tribunal do Júri da Comarca de Salvador, em sessão realizada nos dias 13 e 14 de abril de 2026.
Arielson recebeu pena de 40 anos, 5 meses e 22 dias de reclusão, enquanto Marílio foi condenado a 29 anos e 9 meses, ambas em regime inicial fechado. Marílio morreu dois dias após o julgamento.
Ao todo, cinco pessoas são acusadas de envolvimento no assassinato de Mãe Bernadete.
Além de Josevan, a sessão de julgamento de Sérgio Ferreira de Jesus está marcada para 21 de outubro de 2026, também no Fórum Ruy Barbosa. Já o processo contra Ydney Carlos Santos de Jesus aguarda o trânsito em julgado e ainda não tem data de julgamento agendada.
Mãe Bernadete foi assassinada aos 72 anos, em agosto de 2023, dentro da sede da Associação Quilombola Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador (RMS).
O crime teve repercussão nacional e mobilizou organizações de defesa dos direitos humanos e das comunidades quilombolas.


